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Nas asas do sonho

Um filho desejado é sempre idealizado. Imagens e acções percorrem em ritmo alucinante as mentes de um pai e ofuscam os olhos, tal o brilho com que cintilam. Será estrela que iluminará o breu nocturno, será vida para um planeta estéril e, o mais importante, será essência que orienta o destino.
No meu caso, sensações indescritíveis multiplicadas. Prevê-se uma gravidez trigemelar difícil mas que, bem cuidada, chegará a bom porto. O dia do milagre chegou, antecipado por 14 semanas e com ele o contacto com uma realidade até então longínqua. Mas os bebés não nascem crescidinhos e rosadinhos? Incubadora? Ventilação assistida? Cuidados intensivos? Olá pai, benvindo à Terra! Pensava que apenas as crias da savana africana tinham o infortúnio de sofrer, à nascença, a perseguição dos predadores. Os leões estavam à solta e obstinadamente cercavam, em movimentos ameaçadores, as minhas crias indefesas. Mas a força estava com elas e os pais revelaram o seu instinto mais primordial e intrínseco à natureza humana, a protecção da descendência. A eles se juntaram médicos e enfermeiros no amparo e união de esforços para travar a luta desigual contra a senhora de vestes negras e de lâmina afiada.
Batalha vencida! Mas não sem sequelas… Eis chegado à história da Rita, menina que cintila como ninguém e que me faz ver sempre mais além, que me faz rir, que me faz amar a vida e sentir prazer em vivê-la. Nova etapa, nova realidade e nova descoberta: afinal as crianças especiais existem! E como são especiais!…
A Rita conseguiu reformular a minha forma de encarar o mundo. Ele não é cruel, é feito de coisas belas, a natureza existe em todo o seu esplendor quando visto pelo mais sublime dos olhares.
A felicidade estampada no seu rosto é uma constante. Para ela as limitações são encaradas como realidades a serem superadas ou minimizadas, não como fatalidades. A consciência que tem de si permite-lhe transmitir, a quem a rodeia, confiança e partilha, como quem diz, vem que eu ensino-te a viver com as tuas próprias faculdades. Ela ensina e quem a rodeia aprende. Sorte de quem priva com “professora” de tamanho calibre.
Menina activa, a Rita, consegue voar com as asas da sua imaginação, sobrevoa montes, vales, rios e florestas e com ela leva quem queira sonhar, quem tem a sorte de viver, conviver e trabalhar no seu dia-a-dia. Voz carinhosa que convida. Bem-vindos a bordo! Parece dizer. Soltem as amarras e deixem-se levar, o mundo é tão grande!
Meninos que se sentam em torno das suas pernas de grandes rodas e se sentem integrados num mundo diferente, tão diferente! Cada um é feito de uma cor, a virtude de poucos é conseguir reunir o espectro variado e em explosão cromática soltá-lo num arco íris.
Pais que, nas suas vidas atribuladas, ouvem sempre a palavra que reflecte o mais puro dos sentimentos, amo-te.
Terapeutas e médicos que, no seu sentido mais profissional e de cariz científico, se questionam sobre o que fará desta criança um ser tão feliz. A resposta vem por gestos e palavras simples revelando o mais sagrado dos segredos, a vida é bela em todas as suas componentes.
Os seus olhos reluzem em cada momento. Montada num cavalo sente-se confiante, indomável e livre. Ali tudo é possível, todos os sonhos se tornam realidade, qual trono de Olimpo catalizador de energias que a transporta para um patamar superior. Os movimentos do seu companheiro, que nunca a questionou, que nunca a condenou, proporcionam-lhe calor e experiências que lhe permitem abrir os membros alados e lançar-se do ninho ao encontro da autonomia.
Dou por mim, rodeado de gente, olhando o céu azul, observando o voo planado de uma linda menina e de rosto feliz. E vós, bem-aventurados, que aprendem com todas as Ritas deste mundo, estão convidados a contemplar. Abriguem-se sob as asas desses meninos e fortaleçam-nas.
Nem no mais perfeito dos sonhos de um pai algum filho poderia ser idealizado desta forma. A Rita foi pintada com pinceladas mágicas e divinas numa tela de amor próprio e ao próximo.

Que as minhas palavras atravessem os oceanos das mentes, cavalguem as ondas tempestuosas do preconceito e sejam acolhidas no regaço de qualquer coração aberto à igualdade…à igualdade na diferença.

Um abraço

José Manuel Botelho Patrício