Ser Pai

Força escondida

É nos momentos mais difíceis que descobrimos a nossa verdadeira força interior….
Antes de abraçar este projecto, comecei por ser Pai de uma encantadora criança com Paralisia Cerebral.
Percebi que quando tudo parecia fazer sentido, que quando o caminho estava a começar a ser percorrido na direcção do que todos idealizamos, afinal tudo pode seguir um caminho diferente, onde mesmo os mais fortes se sentem à mercê do estímulo mais ténue.
Ao longo deste percurso, que ainda está a começar, percebi e descobri que a luta nunca termina, e que ao longo do caminho as batalhas são mais do que as desejadas.
Todos nos vamos encontrar a lutar contra algo, incessantemente, porque só assim o sentido de justiça e igualdade pode ser reposto em níveis minimamente aceitáveis.
Descobri, sem que esse facto me torne mais feliz ou completo, que infelizmente, ao olharmos para o lado, sem ter de levar a vista muito longe, que a “nossa tragédia” pode-se tornar bem pequena ou insignificante.
Acredito que bem mais difícil que lutar pela reabilitação de uma criança é ter de lutar pela sobrevivência de mesma.
Lidei com essa realidade, não na primeira pessoa, mas suficiente perto para ganhar força nos momentos em que até uma leve brisa parece querer levar-nos pelo ar.
Defendo que a partilha é essencial, pois só assim se podem tornar diminutas as angústias, muitas vezes circunscritas aos lares de cada um de nós.
Já é tempo de mudar.
Já é tempo de abrir a janela e deixar as angustias saírem, bem como deixar novos ares entrarem.
Já é tempo de interiorizar que o Apoio que estas Pessoas e respectivas Famílias necessitam, não tem de ser apenas financeiro e profissional, até porque o verdadeiro entendimento, o verdadeiro sentir é vivido por cada um e suas famílias.
A palavra inclusão não faria hoje sentido, se ao longo de todos estes anos a auto exclusão não tivesse sido a atitude dominante.
Não faço esta afirmação numa perspectiva destrutiva, mas sim por entender que esta luta tem de começar de dentro para fora.
Aliás, como em tudo na vida, somos nós que temos de lutar para atingirmos as nossas metas e objectivos…
Muitos poderão afirmar que é fácil falar quando se está de fora, mas eu não estou de fora, eu estou dentro e acreditem, não quero sair.
Não quero sair porque sinto que todos os braços são úteis nesta construção, nesta mudança que seguramente irá atravessar gerações, mas que sem dúvida tem de ser levada a cabo.
Não podemos continuar sentados a assistir à construção de 10 estádios de futebol quando as verdadeiras carências estão directamente relacionadas com áreas de primeira necessidade.
Não podemos continuar sentados a assistir que se invista na ordem inversa das necessidades.
Para os que estão de fora, talvez nada do que aqui escrevi faça sentido, mas deixo-vos um desfio… aproximem-se, dêem uma vista de olhos, tentem vestir uma pele diferente, nem que seja nos poucos minutos em que estiveram a passar os Vossos olhos neste testemunho…
Da mesma forma que para vivermos com qualidade o nosso corpo necessita de todos os órgãos a funcionar em harmonia e equilíbrio, da mesma forma só poderemos ter uma sociedade saudável e equilibrada quando todos tiverem as mesmas hipóteses de chegar aos mesmos lugares.
E sabem o que nos separa desta meta?
Para mim, apenas duas coisas: o medo e o preconceito.
Luís Pedro